Uma empresa de manufatura se instalou há dez anos em um estado com forte programa de incentivos regionais. O benefício fiscal de ICMS representava margem significativa nos cálculos de viabilidade da operação. No início, tudo correu como planejado. Mas agora, com a reforma tributária em andamento, o executivo responsável começa a fazer perguntas incômodas: esse incentivo vai durar até quando? E se não durar, quanto da margem a empresa consegue manter sem ele? Essa situação não é fictícia. Dezenas de empresas estão nela agora, e não sabem ainda.
A resposta não é simples, mas precisa ser clara: grande parte dos benefícios fiscais regionais de hoje tende a perder força estrutural ao longo da transição tributária. Não desaparecem de uma hora para outra. Mas a lógica que os sustenta muda fundamentalmente.
A Mudança de Jogo: de Origem para Destino
O sistema tributário atual funciona, em boa medida, por um critério de origem. Quando uma empresa se sedia em determinado estado, o imposto que ela gera fica, em grande parte, naquele estado. Por isso, há décadas, estados competem uns com os outros oferecendo incentivos de ICMS para atrair sedes, filiais e investimentos. É a chamada guerra fiscal. Um estado diz: “Venha para cá, você paga menos imposto porque estou aqui.” E empresas se mudam.
A reforma tributária muda esse critério para destino. O imposto passa a seguir o consumo, não a produção ou a sede. Se você fabrica em São Paulo mas vende em Minas, o imposto fica, majoritariamente, em Minas. Isso é estruturalmente diferente.
Com essa mudança, o incentivo de um estado para atrair uma empresa sediada em seu território perde muito do seu sentido. Se o imposto não fica no estado de origem da empresa, por que o estado gastaria recursos para reduzir a alíquota? Não há mais a mesma lógica de captura.
Quem Sofre Mais com Isso
Nem todos os negócios são impactados da mesma forma. Empresas que produzem principalmente para consumo local, ou que já capturam boa parte do valor em seu estado de origem, sofrem menos. Mas quem criou sua estrutura de custos contando fortemente com um benefício fiscal regional está em posição vulnerável.
Pense em uma indústria com cadeia de suprimentos longa, que se instalou em uma região para aproveitar o incentivo de ICMS e hoje depende dessa redução de alíquota para manter margens competitivas. Com a transição, muitos desses incentivos desaparecem. E aqui está o problema crítico: a empresa perde a vantagem sem necessariamente ganhar com as novas regras do IBS e CBS, que oferecem crédito mais amplo. Fica numa situação oposta à de quem ganha com o sistema novo.
A transição não é imediata. O ICMS vai sendo extinto gradualmente até 2033. Mas para empresas que dependem de benefícios regionais, essa “gradualidade” é uma zona cinzenta perigosa. Você não sabe exatamente quando o benefício cai, como ele vai ser compensado, e se as regras de transição previstas na reforma vão cobrir sua situação específica.
O Que Você Precisa Fazer Agora
Não há como evitar a reforma. Mas há como se preparar. O primeiro passo é brutal e honesto: calcule quanto do seu resultado, sua margem operacional, seu EBITDA depende do benefício fiscal regional que você usa hoje. Não é estimativa. É número real, auditado se possível.
Depois, simule cenários. O que acontece com a empresa se esse benefício desaparecer amanhã? Você consegue competir nos mesmos mercados mantendo a mesma margem? Precisa cortar custos? Aumentar preço? Sair de determinadas linhas de negócio? Melhor descobrir isso agora, com tempo para reagir, do que quando a reforma já estiver na fase de extinção do ICMS.
Acompanhe também a regulamentação em andamento. A reforma prevê mecanismos de transição e compensação. O desenho fino desses mecanismos ainda está sendo definido. Se a sua empresa se beneficia de incentivo regional, participar de consultas públicas, acompanhar associações setoriais e manter diálogo com seu consultor tributário não é luxo. É sobrevivência.
Benefício Revisor, Risco Futuro
A verdade incômoda é essa: um benefício fiscal que você não revisa com regularidade deixa de ser vantagem e vira risco. Se você tem uma estrutura montada há anos contando com aquele incentivo, e não fez as contas de quanto muda sem ele, está apostando que a reforma vai ser gentil com você. A história de mudanças tributárias no Brasil sugere que não se aposta nisso.
A reforma tributária não é fim do mundo para empresas com benefícios regionais. Mas é fim de um ciclo. Quem mapear sua exposição agora, simular alternativas e se preparar vai atravessar a transição com menos surpresas. Quem ignorar a questão e esperar que tudo se ajeite vai descobrir, em 2029 ou 2030, que não havia tempo suficiente para se ajeitar.
Quanto do seu EBITDA hoje depende de um benefício fiscal regional? Se você não sabe responder essa pergunta com precisão, é hora de fazer essa tarefa.
Ficou com dúvidas sobre como isso afeta sua empresa?
Cada negócio é impactado de um jeito diferente pela reforma. Fale diretamente comigo pelo WhatsApp.
Falar com Douglas Figueredo