Um empresário de uma indústria de bens duráveis conversou comigo semanas atrás. Ele disse: “Doutor, a reforma me preocupa, mas ainda tenho sete anos até 2033. Deixo isso para o contador resolver mais perto de lá.” Eu fiz uma pergunta que mudou a perspectiva dele: “E se as decisões que você toma sobre contratos e precificação agora, em 2026, definirem sua carga tributária para toda a década?”
Ele ficou em silêncio. Porque percebeu que não tinha “sete anos” de folga: tinha alguns meses.
A Reforma Tributária do Consumo (Emenda Constitucional 132/2023, regulamentada pela Lei Complementar 214/2025 e Lei Complementar 227/2026) é um projeto que vai aos poucos. Mas “aos poucos” não significa “longe”. Enquanto muitos empresários veem 2033 como o prazo final, a transição já começou, e as escolhas feitas agora vão ressoar até 2033 e além.
O que você está deixando passar
A reforma substitui cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) por três novos: CBS (federal), IBS (estados e municípios) e Imposto Seletivo. Parece simples, não é? O ponto crítico é que muda a lógica inteira de cobrança: hoje, o imposto fica em grande parte na origem (onde sua empresa está sediada ou presta o serviço). No novo sistema, o imposto pertence ao destino, ou seja, onde o bem ou serviço é efetivamente consumido.
Essa mudança não é apenas contábil. Ela redesenha contratos, precificação, estrutura de ERP, fluxo de crédito e até decisões sobre onde manter operações. Empresas que deixarem essa análise para 2032 vão estar corrigindo tudo sob pressão, com sistemas já travados e margens já comprometidas.
O calendário que importa desde agora
A reforma não acontece de uma vez. Ela tem quatro fases bem definidas:
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2026: Fase de teste. IBS e CBS cobrados a alíquota simbólica de 0,1%, sem impacto relevante de caixa. É um teste de sistemas e arrecadação. Sua empresa deve aproveitar para adequar ERP, processos de apuração e controles. O que parece um exercício é, na verdade, a chance de corrigir problemas com tempo.
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2027: CBS entra em vigor plenamente, substituindo PIS e Cofins (que são extintos). O novo sistema de não cumulatividade plena passa a funcionar. Crédito tributário vale em toda a cadeia. Quem não estruturou o fluxo de crédito até aqui descobre o problema quando a alíquota já é real.
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2029 a 2032: Substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS. As alíquotas do IBS aumentam progressivamente a cada ano. Estados e municípios coexistem com o sistema antigo durante esse período. É a fase mais longa e mais confusa, porque há dois sistemas rodando ao mesmo tempo em diferentes jurisdições.
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2033: Sistema pleno. ICMS e ISS são extintos definitivamente. IBS e CBS operam com alíquotas definitivas. O calendário de cinco tributos virou dois.
Parece um horizonte longo, mas o calendário não é linear. As decisões de estrutura (contratual, de ERP, de precificação) tomadas em 2026 e 2027 travam a margem efetiva de 2029 em diante. Corrigir em 2032 é corrigir tarde.
O efeito não é igual para todos
Aqui está o ponto que muita gente não capta: a reforma não tem um único efeito. O cronograma é uniforme (2026, 2027, 2029-2032, 2033), mas o impacto varia setor a setor.
Cada setor tem desenho regulatório próprio: regime regular, regime simplificado, e regimes específicos para saúde, educação, agronegócio, setor financeiro. O efeito líquido (ganho ou perda de carga tributária) depende de cada cadeia, e até de cada empresa dentro da mesma cadeia, conforme o peso de insumos com direito a crédito.
Uma indústria pode ganhar. Um serviço pode perder. Uma empresa pode ganhar e sua concorrente perder. Não existe a frase “a reforma vai me prejudicar” de forma genérica. Existe “a reforma vai afetar meu mix de negócios dessa forma, e preciso redesenhar minha estratégia comercial”.
Isso exige simulação, comparação, revisão de contratos e, sim, decisões reais sobre quais linhas de negócio ajustar. Não é trabalho de contador. É trabalho de conselho, de CEO, de planejamento estratégico, apoiado por simulações tributárias rigorosas.
O que fazer agora
A transição já começou. 2026 não é um ano de “esperar e ver”. É um ano de ação. Seus ERP precisam estar preparados para capturar dados de origem e destino (essencial para IBS e CBS). Seus contratos precisam ser revisados para saber quem fica com qual carga tributária em cada cenário. Sua precificação precisa ser testada contra simulações do novo sistema.
Empresas que tratam a reforma como “assunto para o contador resolver depois” vão descobrir em 2027 que já perderam o jogo. Empresas que agem agora têm tempo de corrigir tudo sem pressão.
Sua empresa está mapeada e testada contra o novo cronograma? Se a resposta é não, esse é seu próximo passo.
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Falar com Douglas Figueredo